domingo, 19 de abril de 2015

O Exegeta no texto



1.  O que é texto?

   Chama-se texto o conteúdo verbal exato de um livro. Comparando os textos das nossas edições da Bíblia, bem depressa constatamos como eles diferem uns dos outros. 

Tomemos ex. 1,8 como exemplo de um versículo qualquer:

“Entretanto se levantou no Egito um novo rei que não conhecia a José” (A.P. de Fiqueredo).

“Entrementes se levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José” ( J. Ferreira de Almeida).

“Entretanto levantou-se  no Egito um novo rei que não conhecia José” (Matos Soares).

“Entretanto subiu ao trono do Egito um novo rei que não tinha conhecido José” (Ave Maria).

“Ora, no Egito surgiu um novo rei, que nada sabia sobre José” (Pontifício Instituto Bíblico – Ed. Paulinas).

   O Sentido destas frases é quase todo idêntico, mas o texto contém dezoito variantes distintas, e só as palavras “novo rei”, “Egito” e “José” são iguais. Apesar do sentido quase idêntico, temos cinco textos diferentes. Mas, na realidade, o sentido não é inteiramente igual: Quando as frases começam com “entretanto” (ou “entrementes”), estabelece-se uma ligação com os acontecimentos precedentes ou seja, o vem após: o novo rei chega, quando o povo israelita já se tornara numeroso. Na edição do Pontifício Instituto Bíblico – Ed. Paulinas, não se percebe nitidamente se o versículo começa nova história. Entre “ não conhecia (a) José”, “não conhecera (tinha conhecido)  (a) José” e “nada sabia sobre José” existem também diferenças.

   Temos, portanto, variantes que não alteram o sentido, e variantes que o mudam mais ou menos. Por isso, a primeira questão que o exegeta se coloca é a de saber em que consiste o verdadeiro texto?

   Em princípio, esta pergunta parece fácil de responder: o verdadeiro texto é, naturalmente, aquele que o próprio autor escreveu. Por isso desta possibilidade, excluem-se de antemão, todas as frases acima citadas. Elas são traduções, mas traduções não podem constituir o verdadeiro texto. Na melhor das hipóteses, elas reproduzem corretamente o seu sentido. Como, em geral, o tradutor só pode traduzir um texto que ele entendeu anteriormente, toda tradução é o resultado de uma determinada compreensão. É só na língua original, a língua primitiva, ou seja original, que se pode encontrar o texto autêntico.

2.  Onde se encontra o verdadeiro texto?




    Ainda não temos o texto autêntico, quando consultamos uma Bíblia hebraica (e em alguns livros do Antigo Testamento, que só nos foram conservados em traduções, nem sequer isto é possível),ou seja, não sabemos se de fato e até que ponto o texto impresso – em 1970, 1948, ou quando o tenha sido – é o mesmo texto que o autor formulou. Não é só pelo simples fato de ser achar na língua primitiva que ele se torna o texto original. Ora, os escritos originais que os autores escreveram pessoalmente ou ditaram de viva voz, desde há muito se perderam. Isto se aplica inclusive aos escritos bastantes mais recentes do Novo Testamento.

  Até o ano de 1948 os manuscritos mais antigos da Bíblia hebraica provinham da época posterior a Carlos Magno. Eram cópias de cópias que se sucediam em longas séries. As partes finais do Antigo Testamento surgiram no século I a.C. e as partes mais antigas já no século X. Com isto temos um espaço de 1.000 a 2.000 anos entre o escrito original e a primeira cópia que se conservou. Quanta coisa não poderá ter mudado nesse tempo! Nem sequer se deve pensar em falsificações conscientes. Cada copista cometia seus erros, e estes erros foram se somando no decorrer de tão longo período.

   Já nos referimos ao cuidado e, mesmo, ao pedantismo com que, a partir do ano 100 d.C., aproximadamente, os sábios judeus, mais tarde conhecidos pelo nome Massoretas, velaram pela conservação do texto. Eles contaram os versículos, as palavras e mesmo as letras de cada livro, para garantir que, com as cópias, não se perdesse a mínima coisa que fosse. Assim os Massoretas verificaram que os cinco livros de Moisés contêm, no total, 5.845 versículos, 79.856 palavras e 400.845 letras! Estas fatigosas subtilezas testemunham a grande seriedade com que eles penosamente se dedicavam ao texto sagrado. Isto, porém, aconteceu em época demasiadamente tardia. Antes dos Massoretas, a tradução dos livros não era tão cuidadosa. Por esta razão é que hoje temos, com bastante precisão, o texto na forma transmitida desde o ano 100 a.C. Mas, como se passavam as coisas nos séculos anteriores a esta data?

   Há mais de duas décadas, um acaso feliz e inaudito nos ajudou a dar mais um passo avante. Entre 1947 e 1952, no deserto situado no ângulo noroeste do Mar Morto (perto de Hibert Qumran), foram descobertos os restos de uma biblioteca antiquíssima. Não há nenhum livro bíblico do Antigo Testamento hebraico que não tenha sido encontrado ali, muitos deles numa série inteira de exemplares, embora quase todos incompletos. Esta biblioteca é dos anos situados entre 150 a.C. e 70 d. C. Os manuscritos, portanto, são não apenas 1.000 anos mais antigos do que aqueles que até agora conhecíamos, mas remontam mesmo  à época prémassorética ou seja, antes deles. Para alguns livros (como o de Daniel) a distância entre o escrito original e a cópia mais antiga que chegou até nós se reduz mesmo a algumas dezenas de anos.

   A grande sensação da descoberta foi a de não ter havido sensação. É verdade que o texto de então, como era de esperar, naturalmente não se apresentava tão homogêneo como o dos sábios da época posterior. Existem muitas variantes, o que nos mostra que havia menos cuidados no trabalho de copiar.

 Contudo, quase não se encontrou nenhuma passagem cujo sentido tenha sido mudado pelas variantes.

   Isto significa, de um lado, que hoje não temos mais o texto primitivo, e, por outro lado, que talvez jamais voltemos a encontra-lo. Isto de “descobrir” escritos originais pertence à literatura romântica. Apesar de tudo, podemos acreditar que o texto ao nosso alcance traduz o sentido do texto primitivo e que temos, em essência, o texto “autentico” . Se desde o ano 100 a. C., até hoje, ou seja: em um período de mais de 2.000 anos, ele mudou tão pouco, é de esperar que, de certa forma, tenha permanecido inalterado também nos séculos anteriores a esta data.

3.  A crítica textual



  Como quer que seja, contínua de pé a tarefa de extrair dos manuscritos atuais o texto que se aproxime o máximo possível do texto original. É esta a tarefa que a crítica textual se impõe a si mesma. Qual é então, o seu método de trabalho?

       Comparação dos manuscritos

   A esta pergunta gostaríamos de responder, dizendo que o manuscrito antigo contém evidentemente também a variante mais antiga. Mas, por trás disto, como é fácil de ver, pode estar escondido um sofisma. Suponhamos que o documento original tenha sido copiado cuidadosamente, logo no início, que bastante tempo depois tenha sido tirada dele uma outra cópia; que esta nova cópia, por sua vez, tenha servido de modelo direto para uma cópia do ano 1350, que ainda se conserva. Mas, suponhamos também que, por esta época, um copista bastante descuidado a tenha transcrito, cometendo então muitos erros; que esta cópia mal feita tenha ido parar, por sua vez, nas mãos de um copista leviano; que no ano 950 uma pessoa conscienciosa tenha feito dela uma cópia literal, e que possuamos hoje esta obra. Embora seja 400 anos mais antigo do que o outro manuscrito, este trabalho deverá conter muito mais erros , porque tem um “tronco” em pior estado. Percebeu? A idade do manuscrito necessariamente nada diz a respeito da idade da variante. Assim, os manuscritos hebraicos medievais, numa média de três cada quatro, contem variantes melhores (e por isso mesmo mais antigas) do que um rolo de Isaías encontrado junto ao Mar Morto e escrito mil anos antes. Mas quando a idade do manuscrito, conhecida em geral com bastante precisão, não decide, qual o recurso de que se serve a crítica textual para identificar a melhor variante?

       Comparação das variantes

   Muitas vezes o contexto em que se situa o texto pode decidir qual a melhor das variantes. Assim, em Isaías 21.8 temos o texto tradicional: “Então gritou um leão: Na atalaia, Senhor, estou continuamente todo o dia”. Esta palavra “leão” sempre causou estranheza. Deve tratar-se do nome simbólico – se bem incomum – de algum profeta, pois sem a menor dúvida é um profeta que pronuncia estas palavras. Mas eis que que agora, nesta mesma passagem, que se encontra no rolo de Isaías, descoberto recentemente junto ao Mar Morto, temos este versículo: “Então disse o profeta: ...”. Entretanto, em algumas traduções hoje em dia não aparece;  pois houve algumas modificações, tais na Bíblia, J. Ferreira de Almeida ano 1993 vem “... COMO um leão...” Erradamente. E mais, na Bíblia de Estudo NTLH ano 2005, não cita nem “como um leão” e muito menos “profeta”. Evidentemente esta variante oferece o melhor sentido, por isso, neste caso, deve-se preferir à variante do manuscrito mais antigo. Pela simples troca de duas letras hebraicas, ou seja, por causa de um erro muito banal de cópia, o “profeta” se transformou em “leão”.

   E  com isto já abordamos o segundo critério. É preciso que se tenha a possibilidade de provar que a variante posterior se desenvolveu a partir da variante original. No caso citado, essas condições não estavam preenchidas, porque, da ordem em que se acham as letras YX tanto pode surgir XY, a variante A se tenha desenvolvido a partir da variante B, e não ao inverso.

 Tomemos base um exemplo: em Isaías 41.23, o Profeta se dirige zombeteiramente aos deuses: “Fazei alguma coisa de bom ou de mau, para que os observemos e vejamos!” Em todo o caso, é assim que se lê nos manuscritos tardios. Nestes manuscritos, não é comum e ocorre pouco frequentemente a palavra com o significado aproximativo de observar. Sob esta forma, ela só variante, traz o seguinte texto: “ ... para que ouçamos e vejamos”. Tem-se a palavra ouvir, com a mudança apenas de uma letra. Mas o que resulta é uma palavra banal. É mais provável que um copista substituía uma palavra rara por uma palavra de uso corrente, do que empregar uma palavra omitida em vez de uma palavra costumeira. Assim, no referido caso, os manuscritos posteriores devem conter a versão mais antiga.

   Reconstituição



   Por fim, existe também um outro recurso, perigoso mas indispensável, usado na reconstituição de um texto antigo: é a conjectura (= suposição). Recorre-se à conjectura quando nenhuma das variantes recebidas satisfaz e se supõe que a variante original se perdeu. Neste caso, deduz-se a variante primitiva, através da “suposição”.

     A conjectura: um método perigoso, mas por vezes necessário.

   Seja, p.ex., o texto hebraico de Isaías 2.6, onde se lê: “Pois rejeitaste o teu povo, a casa de Israel, porque eles estão cheios do Oriente e de agoureiros, à maneira dos filisteus”.

   É difícil de extrair daí um sentido completo, e é natural pensar que algum copista antigo tenha cometido um erro de transcrição, o qual teria sido assumido por todos os que vieram depois. Agora, porém, é possível estabelecer o texto como segue, fazendo-se uma pequena mudança: “...  porque eles estão cheios de adivinhos e de agoureiros, à maneira dos filisteus”.

   Embora não seja encontrada em nenhum dos manuscritos, esta variante tem sido em geral considerada como a original.

   Difícil também de entender é o Salmo 2.11. Se conservarmos a ordem das letras hebraicas: glw brcdh nsqw br e as traduzirmos literalmente, teremos: “exultai de alegria com tremor; beijai o filho”.

De qualquer modo, sempre se pode exultar de alegria com tremor. Mas é um enigma saber o motivo pelo qual, neste contexto, se deve beijar o filho, como também saber por que a palavra filho está em aramaico [bar] e não em hebraico [bem]. Embora hoje se tenha posto o verso seguinte, “beijai o filho”. Ora, se deslocamos os dois últimos grupos de letras:

   Nsqw (= nasequ = beijai) br (= bar = filho) para o início da série, resultando a seguinte disposição: nsqw brglw brcdh, teremos a tradução: “beija os seus pés (do rei) com tremor”; obteremos, assim, um sentido excelente, embora esta variante não se encontre em nenhum dos manuscritos existentes.

   Um derradeiro exemplo, que não é propriamente uma conjectura, porque deixa sem alteração o conjunto das consoantes, encontramo-lo no Salmo 68 [67], 18 onde lemos o texto recebido: adonai bm sini baqodes – o Senhor está no meio deles, o Sinai no santuário.

   Este Salmo é um cântico processional. Logo acima, ele nos fala de milhares de carros. Pode-se, muito bem, imaginar Deus viajando neles, embora um só bastasse. Mas o que vai buscar o Sinai no santuário? Basta uma pequena alteração, que consiste em agrupar as letras de uma outra maneira, para termos o seguinte texto: adonai  b msini baqodes – “O Senhor vem do Sinai para o seu tabernáculo”.

   Isto, mais uma vez, nos proporciona um sentido excelente: a procissão celeste vem do monte de Deus e conquista o Monte Sião para YAHWEH.

   O recurso da conjectura tem, contudo, os seus perigos. Por isso é que hoje os estudiosos tem-se tornado mais cautelosos quanto ao seu emprego. E só corrigem aquelas passagens que continuam sem explicação ou que são por demais duvidosas, e somente nos casos em que seja necessário mudar o menos possível os textos recebidos.

4.  A posição da crítica textual

    Isto talvez nos bastasse para mostrar em que consiste a crítica textual. Sabemos como é fatigoso o trabalho de investigar e de comparar variante por variante. Só um dos rolos Isaías descobertos junto ao Mar Morto contém 1.500 variantes diferentes do texto recebido. Mas é preciso recordar que as mínimas variantes alteram o sentido do texto.

   Por isso, sob certo aspecto, a crítica textual caracteriza o esplendor e a miséria da Exegese. Seu esplendor consiste em suas realizações. Ele tem comparado milhares de manuscritos antigos; tem investigado traduções em dezenas de línguas; tem procurado e descoberto cópias antigas, muitas vezes em circunstâncias aventurosas. Deste seu trabalho resultou um texto realmente fidedigno, um texto melhor do que os textos das antigas Bíblias que se conservavam nas sinagogas no tempo de Jesus. Seu método foi estritamente científico. Cada escrito teve de ser justificado e pode ser controlado. Em questão de fidedignidade, ela pode ser comparada ao trabalho de precisão de laboratório das outras ciências modernas. Quem admite o valor da ciência, deve admitir também os resultados da crítica textual. Não importa o que ele acredita, de que Igreja faça parte, ou mesmo se não acredita.

   Sua miséria é sua sujeição à letra. Na verdade, seria uma caricatura apresentar o exegeta como um homem que estuda anos a fio para saber se uma vírgula está no lugar correto, ou se se deve cancelar um “e” de alguma passagem. O que há de verdade nisto é que uma letra pode realmente decidir o sentido de toda uma frase. Por mais convincente que seja uma interpretação, uma única letra pode fazê-la ruir por terra. A letra deve prevalecer sobre os voos do pensamento e as palavras edificantes (no bom sentido).

   Mas esta miséria é também o orgulho secreto da Exegese. Toda ela está orientada para um único objetivo: o de procurar e de chegar ao verdadeiro sentido do texto. Ela deve assumir tudo o que é necessário para este fim, como Jacó, que se empenharam durante duas vezes sete anos, para obter a mão de Raquel.

   Não há outro livro da humanidade a cujo texto se tenha dedicado tanto trabalho e tanto esforço como a Bíblia. E por que todo este trabalho? A literatura universal conhece obras mais bem escritas e mais interessantes. E só uma coisa explica este trabalho gigantesco e cheio de fadiga: é o anseio da comunidade de Deus por encontrar a palavra viva de Deus por trás da letra e do pensamento do autor.

   A Exegese é um milagre de fé, e este milagre se torna tanto maior, quando se sabe que muitos e insignes cientistas não-crentes, no sentido da Igreja, tomaram parte nesta atividade, e não só isto, pois consideraram esta atividade como a obra de suas vidas.

Nota

   O texto neste artigo foi tirado de Assim se formou a Bíblia, embora tenham sido usadas por mim, algumas pitadas de palavras e frases, para melhor interpretação do assunto, me ative para não mudar o sentido da interpretação original. 

Também foram usadas três Bíblias ao contexto, para melhor esclarecer o assunto proposto.  [G].

"Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade". João 17:17

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